Natureza

O Desafio da Viticultura Sustentável No Vale do Douro

O Desafio da Viticultura Sustentável No Vale do Douro

Dizem que o Douro é dos amantes da vida e dos poetas. Talvez o seu poeta maior tenha sido a Natureza, quando há milhões de anos rasgou a paisagem com fios de água, que foram tecendo o padrão monumental onde depois as gentes fizeram socalcos de vinha, casario disperso, pomares e caminhos. E foi precisamente a vinha que obrigou a engenho e arte, pois é nestas encostas agrestes, tão generosas como desafiantes que se produzem alguns dos mais famosos vinhos do mundo.

O Sonho Milenar
Terá sido há mais de 2.000 anos que os primeiros agricultores das montanhas transmontanas se arriscaram a plantar vides nestes vales imemoriais, testando o clima e as vicissitudes dos solos pobres e pedregosos. A sabedoria adquirida com inúmeras tentativas, erros e sucessos foi passando os séculos até chegarmos à idade das luzes.

A partir de meados do séc. XVIII a viticultura duriense entra na sua primeira era de maturidade e ganha nome e prestígio internacional com a criação da Região Demarcada do Douro, a primeira no mundo, tendo como figura de proa o incomparável vinho do Porto. Tal foi o impacto internacional deste produto de identidade única que o mesmo serviu de base ao debate da revolução no pensamento económico durante o séc. XIX, com nomes como Adam Smith e David Ricardo a usarem a produção de vinho do Porto como um exemplo de eficiência económica que refletia a importância das estratégias de exportação com base em vantagens competitivas e comparativas.

O sangue real do vale torna-se pela mão dos mercadores ingleses um dos néctares mais apreciados na emergente classe média e burguesa, que exercia a sua influência económica num mundo em mudança acelerada pelo uso do carvão e do vapor. De alguma forma, o vinho do Douro, e do Porto em especial, confortou os palatos de grandes industriais, banqueiros e empreendedores que fabricaram as bases para um séc. XX onde a industrialização da economia iria ser determinante para a grande aceleração da evolução das sociedades ocidentais.

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Mas enquanto os pais da economia moderna ainda discutiam o comércio de vinho, trigo e panos de algodão, surgia uma nuvem negra sobre terras durienses. Com o intuito de melhorar a produtividade e a variedade dos seus vinhos, foram importadas cepas americanas que traziam nas raízes pequenos insectos sugadores de seiva, de cor amarela deslavada, que causaram a maior desgraça da história do vale. A chegada da filoxera entre 1868 e 1872 devastou a produção vitivinícola, começando por arrasar as áreas mais orientais do vale, de onde vinham alguns dos mais prestigiados vinhos que o mundo conhecera.

Muitos produtores caíram de joelhos e alguns nunca mais se levantaram, deixando para trás os amaldiçoados mortórios – socalcos que ainda hoje estão ao abandono. Outros, porém, pegaram no que restava, usaram conhecimentos antigos e modernos e encontraram soluções que dariam origem a uma nova era de vitivinicultura tanto no Douro como no resto do país.

“sabíamos que tínhamos um desafio aliciante mas que iria requerer um pensamento de ‘jogo longo’.”
Arte e Tecnologia – O Douro do século XXI

Mais de 100 anos depois da filoxera, a paisagem do Douro é hoje uma visão algo distópica, causada por uma série de falhas económicas que se foram reflectindo na forma como as vinhas foram plantadas e as quintas geridas. As marcas de erosão do solo, de patamares instáveis e a falta de vegetação natural quer ao nível do solo como nos bosquetes tradicionais, fundamentais para a biodiversidade de auxiliares da vinha tornaram-se ubíquas, com algumas – felizmente crescentes – excepções.

Os avanços técnicos e de filosofia de gestão trazidos por ‘clássicos’ do Douro como a Symington, Fladgate, Taylors, entre outros, inspiraram muitos de nós a explorar a fundo o que seria uma visão sustentável deste Património da Humanidade. O modo de produção em protecção integrada tornou-se ‘regra’ e a agricultura biológica deixou de ser tabu e é cada vez mais visto como uma forma de gerir o campo que vai muito para além da protecção dos solos, da natureza e das pessoas.

Quando em 2008 avançámos para a aquisição da Quinta dos Murças, na zona de Cima-Corgo, entre a icónica região de Pinhão/Peso da Régua, sabíamos que tínhamos um desafio aliciante mas que iria requerer um pensamento de ‘jogo longo’. Primeiro, olhar bem para o património de décadas que se estendia perante nós, que começava a meia encosta e descia até à beira rio. Escolhemos quais as vinhas velhas e qual seria a melhor forma de as salvaguardar. Em termos operacionais, começámos por definir com a máxima precaução os procedimentos de sistematização, limpeza e regularização do terreno. A armação do terreno em patamares e para vinha ao alto foi cuidadosamente mapeada e foram definidas metodologias de intervenção no solo que respeitassem ao máximo as suas características intrínsecas, protegessem o mesmo da erosão e de forma a suster níveis óptimos de humidade e de flora adequada à gestão da vinha.

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© Alexandre Delmar
VINHA AO ALTO OU EM PATAMARES ESTREITOS? CONFORME FOR MAIS SUSTENTÁVEL
A decisão sobre a forma como iria ser feita a armação do terreno em Murças obedeceu, na generalidade, a uma regra simples: quando o declive inicial da encosta chegasse no máximo aos 35 a 40%, a solução mais adequada seria a vinha ao alto, com talhões desnivelados por taludes de terra e estradas de trabalho com 7m de largura. Sempre que o declive fosse superior a estes valores a opção recairia nos patamares estreitos, entre os 2,10m e os 2,30m de largura, com uma linha de plantação entre 0,30m a 0,50m de distância do ombro do talude.

As duas soluções não são antagonistas, complementam-se fortemente e entregam diferentes benefícios.

No caso da vinha ao alto conseguimos ter, para as mesmas distâncias entre videiras, maiores densidades de plantação, evitando a necessidade de limpeza e manutenção contínua dos taludes das vinhas em patamares. Além disso, é mais fácil e correcta a distribuição das castas, o gradiente de variante de variação da profundidade e da fertilidade natural do solo ao longo da mesma linha é menor, ou pelo menos mais previsível. Desta forma, os alinhamentos são rectilíneos, enquanto nos patamares desenham curvas, dificultando a construção das sebes e exigindo maior número de esteios a intervalos irregulares. Também neste caso a incidência de doenças é menor, quer porque o arejamento natural das videiras é melhor, quer porque a eficácia das pulverizações é maior. A reforçar esta opção temos que a protecção da erosão das chuvas se consegue pela construção de um talude em terra de desnivelamento entre talhões (com a vantagem de reduzirmos assim o declive inicial da encosta) e da sementeira e crescimento controlado de ervas nas entrelinhas. Como ‘cereja no topo do bolo’, considera-se maior o valor paisagístico das vinhas ao alto.

Contudo, para equilibrar as necessidades produtivas da quinta, em situações de declive acentuado utilizamos a construção de patamares estreitos, com apenas uma linha de plantação e uma largura até 2,30m, que permitem utilizar equipamentos de limpeza mecânica dos taludes, assegurando a sementeira natural das ervas em cada Outono. Uma das práticas pouco sustentáveis que fomos observando no Douro é que a manutenção dos taludes limpos de ervas promove a erosão e a limpeza química dos taludes que é, só pelos perigos toxicológicos e ambientais que apresenta, uma aposta errada. Na construção dos patamares estreitos utilizamos a sua inclinação longitudinal de cerca de 3% para permitir, ao longo de cada patamar, o escoamento das chuvas em excesso. Assim, os patamares têm necessariamente uma inclinação para o interior.

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© Alexandre Delmar
Continuamos a aprender, todos os dias, com especialistas internacionais e pessoas simples que vivem da terra há gerações e gerações. Estamos a terminar esta primeira fase trabalhosa e de grande azáfama de reformar a Quinta dos Murças e toda a equipa tem um enorme orgulho, temperado com a devida humildade, do trabalho que temos feito e dos vinhos que estão a sair da nossa cave.

Aproxima-se uma nova fase, em que nos pretendemos voltar mais para a comunidade local, descobrir mais sobre este espaço, estas terras e acerca de quem cá vive e nos visita. Porque o Douro não é apenas uma região de grandes vinhos, é a tal casa dos poetas e amantes da vida e, tal como, um dos seus poetas amantes mais famosos terá escrito:

“O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.”

Miguel Torga, Diário XII

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