
A maioria dos seus nomes soa bem ao ouvido: Trincadeira, Roupeiro, Moreto, Touriga Nacional, Periquita; algumas nem tanto: Antão Vaz, Aragonês; havendo mesmo uma chamada Bastardo.
Estes nomes dizem-lhe alguma coisa? Damos uma pista: eles também são suaves no paladar, quando na sua forma líquida. Sim, são castas, algumas tintas, algumas brancas, mas todas partilhando um factor comum: são castas Portuguesas - embora haja algumas variedades de Aragonês em Espanha e Bastardo em França - e sobreviventes num mundo que assistiu ao domínio das castas Chardonnay e Cabernet Sauvignon suplantarem as castas locais da Califórnia ao Chile, da Moldávia à Africa do Sul.
Alguns países cuja vinicultura esteve parada no tempo, estão a descobrir que as suas castas tradicionais, quando sujeitas a métodos modernos, deliciam um paladar já saturado destas duas castas dominantes.
É essa a opinião do enólogo David Baverstock, considerado pela revista Portuguesa "Vinhos" como o enólogo do ano 2000. David Baverstock é director técnico da Herdade do Esporão, com cerca de 2000 hectares de vinha, que se situa no Alentejo, nos arredores de Reguengos de Monsaraz.
Todas as castas tradicionais acima mencionadas crescem nesta herdade, cujos limites se mantêm inalterados desde 1267 e onde continuam a aparecer provas de que esta terra já produzia vinho na época romana. Os vinhos tintos e brancos que Baverstock produz através destas castas tradicionais estão a conquistar enorme reconhecimento e a alcançar bons preços ao banqueiro português José Roquette, dono da herdade. O Esporão Tinto Reserva de 1999 conquistou uma Medalha de Prata no International Wine Challenge de Londres em Maio deste ano. Este vinho resulta de uma mistura subtil de Aragonês, Trincadeira, Touriga Nacional e 10% de Cabernet Sauvignon. Não é um vinho barato, sendo vendido em Portugal ao preço de 2900$00 a garrafa e a um pouco menos nos mercados de exportação, pois a sua qualidade é menos conhecida e a competição é mais feroz. Segundo Baverstock, é semelhante a um tinto australiano mas tem um caracter único, mais suave do que a maioria dos tintos desse país. Poder-se-á perguntar o que é que o enólogo do ano em Portugal saberá dos vinhos tintos produzidos nos antípodas?
David Baverstock é um australiano de 46 anos e o primeiro estrangeiro a conquistar este título. Ele faz parte de um grupo que se tornou conhecido como os "flying winemakers", enólogos australianos que têm revolucionado mundialmente a técnica de produção de vinho, desde Napa Valley na Califórnia aos solos sagrados de França. Têm sido frequentemente acusados de estar a reduzir a gama de paladares, sobretudo nos vinhos brancos, pelo facto de usarem, entre outras inovações, depósitos de aço inoxidável, controlo da temperatura de fermentação e uso de misturas não tradicionais.
Baverstock contrapõe, dizendo que "até agora, a consequência principal da ciência vitícola australiana tem sido tornar aceitáveis grandes quantidades de vinho que anteriormente eram consideradas de baixa qualidade".
Segundo ele, "qualquer enólogo australiano, ao provar um copo de vinho, põe a questão: Como poderei torná-lo melhor?. Eles não tentam melhorar vinhos franceses de reconhecida qualidade, mas as pessoas podem sentir-se desapontadas pela qualidade de um vinho médio francês. É devido a este facto que os franceses têm vindo gradualmente a perder quota de mercado. Hoje em dia em Inglaterra, vende-se mais vinho australiano do que francês. Eu acho que os australianos compreenderam que a arte de fazer vinho não se deve apenas à tecnologia e que os franceses compreenderam que não se deve apenas à tradição - ambas são importantes".
Baverstock está mais enraizado do que os seus compatriotas "flying winemakers",. Ele aprendeu a sua arte em Barossa Valley, no sul da Austrália, tendo depois passado 10 anos no norte de Portugal dedicando-se ao negócio do vinho do Porto e vinho de mesa antes de ser contratado para a Herdade do Esporão em 1992. Embora ele tenha trazido para o Esporão o conhecimento de produzir vinhos em regiões de clima quente e a capacidade de falar português, a Herdade não estava ainda a produzir os actuais vinhos de grande qualidade. O banqueiro José Roquette comprou a propriedade em 1973, nas vésperas da revolução que pôs fim à ditadura de António Salazar.
"Em 1974, Portugal não era o país ideal para um banqueiro viver." - diz Baverstock enquanto saboreia um copo de Roupeiro - " Ele partiu para o Brasil entregando a gestão da herdade a um sócio. Nesse tempo não havia adega e todas as uvas tinham de ser entregues à cooperativa local". Quando o fervor revolucionário terminou, José Roquette regressou ao país. Em 1987, construiu uma adega na propriedade e passados 5 anos, quando Baverstock foi contratado, a herdade já produzia 2 milhões de litros de vinho, engarrafando apenas cerca de metade dessa produção e sendo o resto vendido como vinho a granel. "Necessitávamos de melhorar a qualidade para poder produzir vinhos em todas as gamas comerciais - alta, média e baixa". Diz Baverstock, que previu que a globalização das castas francesas iria levar à sua saturação. "As castas Cabernet Sauvignon e Chardonnay são fantásticas mas, em tal quantidade, saturam." Felizmente, Portugal atrasou-se na febre de replantar as vinhas, pois agora, em tempo de excedente de oferta destas 2 castas, possui este recurso genético único.
Mas este velho recurso teve que ser adaptado a novas tecnologias. Grande parte do vinho alentejano era pesado, oxidado e áspero, como a terra em crescera durante tanto tempo. Baverstock investiu o dinheiro do seu patrão em depósitos de aço inoxidável, equipamento de controlo de temperatura, higiene, barris de carvalho americano e novo design de garrafas. "Produzimos vinho num Mundo Novo usando castas de um Velho Mundo." - diz Baverstock. Cerca de 80% da produção é consumida pela sedenta classe média portuguesa, sendo o resto exportado para o Brasil, E. U. A., países do Benelux e Reino Unido.
A herdade do Esporão também engarrafa os seus próprios azeites virgens e vinagres e recentemente começou a produzir queijos alentejanos. Para além da adega, a propriedade também possui um restaurante, muito popular entre turistas vindos de Lisboa e enoturistas estrangeiros. Baverstock gosta de recebe-los e explicar-lhes o que as novas tecnologias podem fazer pelas castas antigas mas, a maior parte do tempo, ele e o seu adjunto, Luís Duarte, encontram-se nas vinhas ou na adega, onde o forte sol alentejano se reflete em todo aquele aço, alegremente procurando novos truques para tornar um bom copo de vinho ainda melhor.
Rod Usher - TIME MAGAZINE - 20/27 Agosto de 2001, 2001-08-21